Lenda Celta – O Casamento de Fionn

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O rei Fionn. Fonte: sacredwood.yuku.com.

Vários anos se passaram depois que Fionn restaurou o prestígio dos fiana. Ele dirigia seu exército com sabedoria, e em todas as circunstâncias dava exemplo de bravura e bom humor.

No entanto, havia uma coisa que incomodava seus companheiros: o rei não tinha nenhuma mulher ao seu lado. Certo dia, Crimall abordou o assunto com o sobrinho.

– Agora você precisa pensar em deixar descendentes.
Conheço várias mulheres que ficariam honradas em viver ao seu lado, mas parece que você não as vê.

Fionn refletiu por um momento, depois disse:

– Você se lembra da noite em que fui sozinho até a fonte sagrada, que fica entre duas colinas, fora dos muros de Tara?

– Lembro, sim. Conforme manda o costume, você foi preparar o coração e a alma para se tornar rei dos fiana.

– Pois bem, aquela noite tive um encontro.

E Fionn contou ao tio a história que se segue.

Ele estava meditando ao lado da fonte, quando uma das duas colinas se abriu para dar passagem a três moças, uma mais linda do que a outra. Manteve-se completamente imóvel, para não denunciar a sua presença e poder observá-las à luz do luar. De repente, uma delas olhou em sua direção e conteve um grito. Imediatamente as três saíram correndo.

– Esperem! Não fujam! – ele gritou, saindo em sua perseguição. 

Estava quase alcançando uma delas, quando a moça desapareceu. Antes, no entanto, os dedos de Fionn haviam agarrado o broche que prendia o vestido da jovem ao ombro. Pouco depois, ele a viu voltar, hesitante, com a mão apoiada na cabeça de uma cabra arisca.

– Se me poupar a vergonha de voltar para dentro da colina com o vestido desalinhado, eu lhe concederei uma graça – ela disse.

Fionn estendeu-lhe a joia.

– Linda moça – ele disse -, não tive má intenção. Queria apenas falar com você. Tome seu broche. Não quero nada além de sua amizade.

Ela olhou, mais confiante, e disse:

– Sei que você é aquele que não tem medo de nós, criaturas do Outro Mundo. Embora não me peça nada, quero recompensá-lo.

E, antes que Fionn pudesse reagir, ela tirou um punhal da cintura e golpeou a cabra. O pobre animal tombou, gemendo, com o pelo manchado de sangue.

– Pegue água nessa fonte e faça-a beber de suas mãos – ela disse.

Ele obedeceu. Assim que bebeu, o animal se levantou, e seu ferimento se fechara.

– Por esse dom, você será amado por seus companheiros – ela predisse.

A moça voltou a desaparecer, e dessa vez para sempre, deixando Fionn dividido entre a tristeza de tê-la perdido e a alegria de ter adquirido um poder maravilhoso.

– Agora você conhece meu segredo – disse Fionn ao tio. – Nenhuma das mulheres que encontrei depois disso conseguiu apagar a lembrança da Dama da colina.

Crimall pôs a mão no ombro do sobrinho. Sabia que não adiantaria dizer mais nada. Nunca mais falou sobre isso com Fionn. Sempre que ouvia elogios a alguma moça, tentava fazer com que ela e Fionn se encontrassem, mas não havia mulher que conseguisse atrair o rei.

Certo dia, Fionn estava caçando e, numa curva do caminho, avistou uma corça magnífica. Imediatamente atiçou seus cães para que fossem atrás dela enquanto ele os seguia de longe. Quando finalmente chegou ao lugar em que a corça fora encurralada, ficou surpreso ao ver que os dois cães de fila que comandavam a matilha defendiam a caça contra o ataque dos outros. Intrigado com o comportamento de seus cães, Fionn levou a corça para casa. Deu-lhe de comer e, para evitar que lhe acontecesse algum mal, abrigou-a na choupana de galhos em que ele dormia durante o verão, conforme era costume entre os fiana. A corça deitou a seus pés. No meio da noite, Fionn foi acordado por um ruído de estalos. Abriu os olhos e, sob o luar que se infiltrava pelas frestas, vislumbrou a silhueta de uma linda jovem.

– Meu nome é Seve – disse ela, ao vê-lo acordado. – Sou a corça cuja vida você poupou. Em outros tempos, um mago cruel quis que eu fosse sua mulher. Como recusei, ele me transformou em animal, para que nenhum homem jamais me cobiçasse. Ao me alimentar e me proteger, você rompeu com o sortilégio.

À sua linda beleza de mulher, a moça aliava a graça da corça. Agradeceu mais uma vez e prometeu nunca mais incomodá-lo, sem no entanto fazer menção de ir embora.

Fionn acabava de encontrar uma moça capaz de fazê-lo esquecer a Dama das colinas. Então eles se amaram. O menino que algum tempo depois nasceu dessa união recebeu o nome de Oisin.

Texto extraído na íntegra do livro Contos e Lendas da Mitologia Celta.

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