Maçonaria – Uma fortaleza inviolável

Quando falamos de sociedades secretas, a maçonaria é citada com frequência como a organização mais emblemática dessa categoria. Nenhuma outra parece ter suscitado tantas controvérsias. Desde a sua criação, no século XVIII, é acusada de tudo o que se pode imaginar: de ser cripitocatólica e criptoprotestante, anticatólica e antiprotestante, judia e antissemita, demoníaca e teísta, comunista e capitalista, sectária e libertária, secreta e falsamente transparente…

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Conhecida por todos, esta poderosa organização guarda o segredo de sua influência secular sob o silêncio de seus membros

Por Luc Nefontaine*

Símbolos maçônicos. Fonte: Printerest.
Símbolos maçônicos. Fonte: Pinterest.

Quando falamos de sociedades secretas, a maçonaria é citada com frequência como a organização mais emblemática dessa categoria. Nenhuma outra parece ter suscitado tantas controvérsias. Desde a sua criação, no século XVIII, é acusada de tudo o que se pode imaginar: de ser cripitocatólica e criptoprotestante, anticatólica e antiprotestante, judia e antissemita, demoníaca e teísta, comunista e capitalista, sectária e libertária, secreta e falsamente transparente…

Diferentemente do que se pensa o senso comum, essa organização sempre teve sua existência formalmente conhecida e reconhecida e, logo que surgiu, declarou fidelidade ao poder
estabelecido. Ao mesmo tempo, suas lojas imediatamente reivindicaram o direito de se constituir de forma livre e
autônoma, o que gerou perseguições e transtornos com a polícia. Embora os locais de reuniões fossem perfeitamente conhecidos pelas forças da ordem, a alegação principal para tal repressão era justamente que os maçons se reuniam em segredo.

Na realidade, o juramento de nada revelar o que é dito nesses encontros é o que inquieta e assusta. Diante das acusações e perseguições, os maçons repetem que não são uma sociedade secreta, mas sim discreta; que seu segredo é inviolável apenas porque não pode ser comunicado; que a não revelação da filiação do outro é sinônimo de preservação da esfera privada para se protegerem de qualquer retaliação externa, em particular no meio profissional; que a prática do sigilo é preciosa em momentos de ressurgimentos de totalitarismos, sempre prontos a persegui-los; por fim , que a ocultação é a garantia de liberdade total de expressão dentro dos limites do templo.

Mesmo assim, os maçons discorrem regularmente sobre a natureza de sua sociedade. Impossível contarmos o número de obras de divulgação que falam sobre “tudo o que você queria saber sobre a maçonaria e nunca teve coragem de perguntar”. Os rituais praticados são publicados, os locais de reunião são amplamente conhecidos da população de cada lugar e os signos de filiação, exibidos. Sem falar da incontável quantidade de sites na internet que revelam outros tantos pormenores da organização.

Em contrapartida, dois tipos de segredo continuam bem preservados. Em primeiro lugar, o das reuniões, ou obrigações: se o maçom se compromete a não repetir o que é dito nos encontros, é para poder expressar opiniões e emoções em completa liberdade, além das palavras de ordem e das imposições disciplinares. Em segundo, o da filiação: se todos podem declarar ser maçons, ninguém está autorizado a revelar o nome de um irmão ou irmã. Até pouco tempo, a manutenção do sigilo era obrigatória, mesmo no círculo familiar mais restrito, cônjuge inclusive.

É claro que a privacidade experimentada no interior das lojas está a léguas de distância de uma superintimidade comunitária, tal como nas sociedades fechadas e nas organizações sectárias. Isso porque os maçons não vivem em conjunto a não ser em raros momentos. E seu narcisismo e egocentrismo – eles vão aos encontros para conhecer a si mesmos em momentos de introspecção – impedem o comunitarismo intimista. Acrescente-se o fato de que os maçons pregam um trabalho de autoconhecimento que deve ser feito sob sigilo da liberdade de pensamento, o que está bem distante dos dogmas de palavras de ordem. No fundo, a intimidade maçônica, que fica no limite entre a fraternidade e a amizade, é feita de hábitos desinteressantes para o mundo exterior. A prática dessa organização gera tiques de linguagem, meios usuais de reconhecimento e maneiras muito próprias de os membros se comportarem.

Mas qual a eficácia de ocultar informações? Na França, as lojas maçônicas foram apresentadas como laboratórios de ideias em que novos temas podiam ser explorados com total liberdade, o que contrastava com as tendências naturalmente conservadoras e imobilistas da sociedade. Assim, o segredo permitiu a eclosão e a discussão livre de ideias novas e progressistas, que puderam concorrer para o estabelecimento de legislações sociais e éticas como o descanso remunerado, a liberação do aborto a partir de 1973, a contracepção e o planejamento familiar.

Portanto, o segredo maçônico não reside tanto nas formas quanto na experiência pessoal da intimidade que ele sozinho simboliza. Ele é tão “superficial” que pode ser penetrado a qualquer momento, por meio de livros, debates, de aproximações, de pesquisas jornalística ou policiais, se for o caso. Essas informações sigilosas pertencem às categorias do não-dito, da discrição, do jardim secreto, do pudor e do privado. Sempre a mesma brincadeira do jogo do velar e desvelar. Dissemos “brincadeira ou jogo” porque a maçonaria pode ser considerada uma prática lúdica, e sabemos que nada é mais sério do que o brincar e o jogar. Assim, vemos os maçons “brincando” de se esconder, de calar sobre sua filiação, de manter “pequenos segredos” que já não são segredos para ninguém. Assim também, vemos a sociedade como um todo se prestar a esse jogo, correr atrás de informações que gostaria que fossem revelações e não divulgações. O jornalista, por exemplo, não ignora que o maçom presta um juramento; ele sabe que o silêncio é formal. Provocar um maçom para fazê-lo falar torna-se então uma missão, que talvez o leve a ficar sabendo de algum pequeno segredo, cuja reunião constituiria o grande furo de reportagem. Mas a cada vez o exército é vão e precisa ser incessantemente recomeçado, pois o segredo se dissimula perpetuamente a quem quer captá-lo. É essa intimidade que escapa às investidas da mídia.

*Luc Nefontaine é historiador das religiões e especialista em maçonaria.

Texto extraído na íntegra da Revista História Viva.

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