Lenda Celta – O Príncipe do Abismo

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Pwyll, o Príncipe do Dyvet. Fonte: Pinterest.

Pwyll reinava sobre o Dyvet*, pequeno reino situado a oeste da ilha dos Homens Fortes**. Então porque era chamado de Príncipe do Abismo? É o que esta história vai explicar.

Certo dia, Pwyll abriu os olhos antes do amanhecer, impelido por uma imensa vontade de caçar. Acordou seus criados para que selassem os cavalos e amatilhassem os cães, reuniu alguns amigos e, com eles, partiu para a floresta à rédea solta. Cavalgou até o entardecer, sem encontrar nenhuma presa.

– Não adianta, vamos voltar – disseram seus companheiros. – O dia hoje não está favorável para nós.

Na verdade, estavam todos um pouco preocupados por terem se aprofundado tanto na floresta. Já tinham provado em outras ocasiões que não eram covardes, mas corriam histórias muito estranhas a respeito daquele lugar. Uma coisa é enfrentar o inimigo de armas em punho, outra é incomodar os maus espíritos nos domínios deles.

– Podem voltar, se quiserem – exclamou Pwyll. – Não desistirei enquanto não pegar um animal qualquer.

Seus olhos tinham um tal brilho que os companheiros não ousaram contrariá-lo. Não havia dúvida de que Pwyll estava tomado por uma inspiração divina. Assim, seus amigos voltaram e deixaram continuar a caçada sozinho. 

Pwyll mergulhou numa região profunda da floresta, onde a vegetação era tão densa que a luz mal filtrava até o chão.

Ao cair a noite, finalmente ele ouviu latidos furiosos. Lançou-se na sua direção, mas os cães que encontrou não eram seus. Eram cães de uma brancura imaculada, com exceção das orelhas, que eram cor de sangue. Nunca vira animais como aqueles. No entanto ele não se demorou a observá-los, pois logo lhe chamou a atenção o veado magnífico que eles haviam extirpado.

– A sorte está a meu favor! – ele exclamou. – Não voltarei de mãos vazias!

Logo sua matilha veio juntar-se a ele. Pwyll dispensou os animais de orelha de sangue e já se preparava para se apossar da caça quando surgiu um cavaleiro, vestido de preto e montado num garanhão de pelagem cinzenta. Sem cumprimentá-lo, o desconhecido o repreendeu:

– Por acaso é digno de um homem de sua estirpe roubar a presa dos outros?

Pwyll foi obrigado a reconhecer que, levado pelo entusiasmo, havia agido mal. Se o desconhecido contasse sua falta, ele se tornaria objeto de zombaria. Seu povo não suportaria ser ridicularizado pelas outras nações e exigiria sua renúncia.

Para apaziguar o cavaleiro, Pwyll perguntou:

– O que posso fazer para me redimir? Diga, mas antes apresente-se, pois, conforme dita o costume, eu o indenizarei de acordo com a posição que você ocupa.

– Então você deverá se superar. Sou Arawn e reino sobre o Abismo, onde se reúnem os mortos quando deixam a superfície da terra. Vou dizer o que desejo como reparação. Um demônio está travando contra mim uma guerra interminável. Seu nome é Hafgan, e ele também quer reinar sobre o abismo. Por mais que eu o golpeie, ele sempre volta à carga. Só um homem valente, vindo do mundo dos vivos, poderá vencê-lo. Esse homem será você. Para isso, deverá assumir meu lugar e minha aparência. Dentro de um ano, enfrentará meu inimigo. Mate-o de um só golpe. Sob essa condição, ficarei livre dela para sempre e você resgatará sua honra.

Pwyll prometeu a Arawn atender a seu pedido, no entanto mergulhou num dilema cruel. Se faltasse à sua palavra, os piores flagelos se abateriam sobre o Dyvet, pois o perjúrio de um rei provoca a ruína de seu reino. No entanto, abandonar seu domínio durante um ano inteiro levaria ao mesmo resultado, pois uma terra sem senhor logo volta ao estado selvagem.

Compreendendo seu embaraço, Arawn disse:

– Que não seja por isso. Já que você vai assumir minha aparência, também eu assumirei a sua e reinarei em seu lugar.

E assim foi feito. Pwyll vestiu as roupas de Arawn e, na mesma hora, assumiu sua fisionomia. Montou no cavalo cinzento, que saiu galopando rumo ao reino do Abismo. Estava tão semelhante a Arawn que ninguém percebeu a troca, nem mesmo a esposa deste último.

Depois de um ano, Pwyll encontrou Hafgan e o abateu com um só golpe, conforme a recomendação de Arawn. Assim que Hafgan caiu no chão, mortalmente ferido, o cavalo de Pwyll tomou o freio nos dentes e levou o dono até a clareira onde, um ano antes, havia encontrado o veado estripado. Arawn já estava à espera. Os dois voltaram a trocar as roupas e cada um retornou para seu país.

Ao chegar, Arawn constatou que todos só tinham elogios para Pwyll, com exceção de sua mulher.

– Minha amiga, por que essa tristeza no rosto?

– Como ousa me perguntar, se há um ano você me vira as costas assim que nos vemos a sós?

– Acontece que neste último ano o homem que você julgava ser eu era o rei do Dyvet. Na verdade, suas palavras provam quanto ele é correto, pois é quase impossível resistir à sua beleza.

Pwyll, por sua vez, encontrou no Dyvet uma prosperidade sem precedentes. Arawn, como rei do país dos mortos, conhecia todos os segredos do mundo subterrâneo, onde os grãos amadurecem para que se desenvolvam as colheitas sob o sol dos vivos.

Contudo, Pwyll não queria usurpar os méritos de outro homem. Então, reuniu seus companheiros em conselho para lhes contar sua aventura. Temia um pouco a reação deles, pois teria de confessar o que acontecera na caçada fatídica. Mas, lembrando que aquele dia Pwyll estava meio fora de si, os amigos não duvidaram de que ele fora vítima de um sortilégio. Assim, de seu relato só concluíram sua bravura, e passaram a chama-lo de Príncipe do Abismo.

* Ao sul do País de Gales.

** Atual Grã-Bretanha

Texto extraído na íntegra do livro Contos e Lendas da Mitologia Celta.

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